FÓRUM SOCIAL IBÉRICO PARA A EDUCAÇÃO


O FÓRUM SOCIAL PARA A EDUCAÇÃO NA CATALUNHA MANIFESTA:

1. QUE QUEREMOS UMA EDUCAÇÃO EMANCIPADORA QUE IMPLIQUE TODA A GENTE

Entendemos a educação como um direito universal e um bem público que vai para além das etapas de escolarização formal das pessoas, dado que forma uma parte inseparável da vida dos cidadãos e das cidadãs. A educação é uma ferramenta imprescindível na formação integral das pessoas e é, por isso, uma responsabilidade colectiva que vai para além da etapa escolar e que a Administração tem o dever de garantir em condições de qualidade e de igualdade. A educação, para além de ser uma necessidade para a emancipação pessoal e colectiva, é uma das condições para tornar possível uma sociedade coesa, inclusiva e justa.

Como tal, temos que assumir uma dupla tarefa. Por um lado, faz-nos falta a implicação de todos os sectores sociais para melhorar o sistema educativo; mas, ao mesmo tempo, também nos faz falta um trabalho interdisciplinar entre todos os sectores e agentes sociais que intervêm no processo educativo das pessoas ao longo da sua vida. E aqui fazemos referência à família, à escola, aos serviços sociais, aos centros abertos, às entidades culturais, à educação de adultos, aos meios de comunicação, à educação não formal, à educação nos tempos livres, ao mundo laboral. Ninguém pode negar a sua quota de responsabilidade.

2. QUE A EDUCAÇÃO NA CATALUNHA TENHA QUE DAR RESPOSTA ÀS PROFUNDAS MUDANÇAS SOCIAIS E TENHA QUE CONTROLAR AS CRESCENTES TENDÊNCIAS PRIVATIZADORAS

O actual modelo de globalização promove a mercantilização da educação e do conhecimento, através de instâncias como o Acordo Geral de Comércio e Serviços que reforçam a OMC e o BM. Assistimos a uma presença crescente dos interesses privados, tanto nos ensinos obrigatórios como na universidade e na formação profissional. Tudo isto põe em perigo a concepção de educação como bem público e como direito fundamental.

As mudanças sociais e de mentalidade, experimentadas no nosso país durante as últimas décadas, têm tido repercussões no ensino. Referimo-nos, entre outras coisas, ao surgimento de diferentes modelos de família; à incorporação massiva das mulheres no trabalho remunerado; à incompatibilidade dos horários laborais, escolares e familiares com as necessidades de atenção da infância e da juventude; às novas tecnologias; ao aumento da imigração; à nova concepção de inclusão que implica a incorporação do aluno com necessidades particulares diversas nos centros regulares. Uma série de novas necessidades que não foram acompanhadas da atenção e dos recursos necessários que as Administrações deveriam ter posto no ensino público, de tal maneira que o actual sistema educativo, na Catalunha, não dá garantias suficientes de uma educação de qualidade para toda a gente nem da imprescindível função de coesão social.

Mais especificamente, não de fez o esforço necessário para que a distribuição dos alunos reflectisse a diversidade cultural e social presente na sociedade, antes se permitiu a concentração dos alunos estrangeiros e com menos recursos nas mesmas escolas. Um facto que dificulta a coesão social que só é possível através da convivência nas mesmas aulas de alunos de diferentes procedências, níveis sociais e culturais, capacidades e limitações.

3. QUE É NECESSÁRIA UMA MUDANÇA DE MODELO EDUCATIVO DO QUAL O ENSINO PÚBLICO SEJA O EIXO VERTEBRADOR

Perante esta situação, torna-se de todo imprescindível uma mudança de modelo educativo que, para além de tudo, seja garante da sua função de transmissão da língua e da cultura próprias do nosso país, a função social de ajudar a compensar as desigualdades e oferecer uma verdadeira igualdade de oportunidades.

A educação tem que promover os valores que são parte do património comum da sociedade democrática: a liberdade de consciência, a liberdade de expressão, o respeito pela pluralidade e pela diferença, o reconhecimento da diversidade cultural, afectiva e sexual, os valores não sexistas e a cultura da paz. Reafirmamos também o carácter laico da escola pública, que tem que tratar a história e as características das diferentes religiões e cosmovisões de maneira não confessional, e terá que evitar conteúdos e enfoques de carácter doutrinário ou confessional, que pertencem exclusivamente à esfera privada das pessoas, e que tem que respeitar tanto a diversidade como a ausência de crenças.

Por tudo isto, é imprescindível que o ensino público seja o eixo vertebrador de todo o sistema educativo, que conte com o necessário prestígio social para se converter na concepção maioritária, e se evite a actual fragmentação social da escola. Para tudo isto, tem que se parar com a crescente privatização do ensino em todos os aspectos e fazer a revisão da actual política de concertação. Também faz falta redefinir o conceito de “serviço público”, que tem que ser entendido como aquele que pertence à comunidade e que é gerido e supervisionado democraticamente.

Faz falta promover as medidas adequadas de prevenção do fracasso escolar, de atenção aos alunos com necessidades educativas especiais, com dificuldades de ordem física, psíquica ou sensorial, como também dos alunos sobredotados, de atenção aos alunos provenientes de sectores sociais e económicos desfavorecidos, e de acolhimento dos alunos recém chegados, com propostas concretas de actuação e a implicação de todos os profissionais e do resto da comunidade educativa. Faz também falta a introdução da educação audiovisual e a presença da educação emocional para favorecer a autoestima de todos e de todas e a sua formação global.

Por tudo isto, é necessário e urgente ampliar os pressupostos de partida destinados ao ensino público, com o objectivo de situar os gastos com a educação na Catalunha, como mínimo, ao nível da média europeia.

Finalmente, as pessoas e organizações que participaram neste Fórum Social para a Educação na Catalunha, consideram que a educação é uma ferramenta fundamental para avançar para uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais próspera, e que, para isso, é imprescindível que todos os sectores e agentes sociais se impliquem na consecução deste objectivo.

E é por isso que as pessoas aqui presentes NOS COMPROMETEMOS:

  • A lutar por esta melhoria da sociedade e, portanto, da educação.
  • A fazer propostas, nos diferentes âmbitos, para conseguir uma educação que responda às necessidades de toda a população.
  • A trabalhar de maneira interdisciplinar entre os diferentes sectores e agentes sociais.
  • A implicarmo-nos na consecução de um ensino público, laico, inclusivo e de qualidade que reuna todas as crianças e jovens da Catalunha.
  • A pressionar para que se elimine a fragmentação social nos centros educativos, derivada da existência de redes educativas diferentes e desiguais.
  • A fomentar um debate público, fluido e plural, entre as pessoas e os agentes que intervêm no processo educativo.

E por tudo isto, as pessoas aqui presentes EXIGIMOS às respectivas Administrações:

  1. Que velem por uma educação universal e gratuita, que responda às necessidades reais das pessoas e assegure uma verdadeira igualdade de oportunidades.
  2. Que se proporcionem as ferramentas e os recursos necessários para garantir uma educação ao longo de toda a vida e se disponibilizem os meios necessários para tornar possível uma oferta educativa ampla que inclua todos os âmbitos da educação.
  3. Que seja garantida resposta pública às necessidades educativas das pessoas adultas, com a adequada redefinição das escolas de adultos e, em concreto, que seja garantida a atenção educativa às pessoas adultas imigradas.
  4. Que se assegure a educação infantil pública e gratuita dos 0 aos 6 anos e seja reconhecida como um direito de todas as crianças.
  5. Que se trabalhe para adequar a vida laboral às necessidades dos pais e das mães, de modo a terem condições para poder realizar a sua função educativa.
  6. Que se garanta a melhoria das competências teóricas e práticas de todos os profissionais (professores/as, educadores/as sociais, pedagogos/as, psicólogo/as, etc.) que intervêm nos processos educativos, e se assegurem condições de trabalho dignas para todos e todas, a partir do 1º ciclo da escola infantil.
  7. Que as administrações apostem decididamente em priorizar uma rede pública de educação em todos os níveis educativos e que responda às necessidades de todas as pessoas. Que se proceda a uma revisão de fundo dos critérios de concertação dos centros privados ou de iniciativa social para que todos os centros que recebem fundos públicos cumpram todos os requisitos legais e sociais próprios de um serviço público. Aqueles que não os cumprirem não terão que receber o mínimo assomo de subvenção pública.
  8. Que as Administrações terão que ter como objectivo, a longo prazo, que todas as escolas e serviços educativos financiados com dinheiro público sejam de titularidade pública. Para isso, faz falta estabelecer novos mecanismos para que os centros privados que mostrem vontade de serviço público se possam integrar na rede pública, garantindo-se a permanência dos postos de trabalho.
  9. Que se ponham todos os recursos humanos, técnicos e materiais, necessários para atender toda a diversidade de alunos e para assegurar um sistema educativo inclusivo e uma verdadeira igualdade de oportunidades.
  10. Que seja garantida a laicidade do sistema educativo, a educação intercultural e não sexista, que promova a igualdade entre homens e mulheres, o respeito pelas diferentes línguas e culturas, opiniões e crenças, o respeito pelas diferentes orientações sexuais e identidades de género, que trabalhe pela criação de uma consciência crítica, que reforce os valores democráticos e se suprima dos planos de estudo todo o enfoque e conteúdo doutrinário, sexista, homófobo ou racista.
  11. Que se assegure um maior investimento em todos os âmbitos sociais que incidam nos processos educativos: educação de adultos, educação não formal, educação nos tempos livres, comunidades educativas, educação social, equipamentos socioculturais, centros abertos, bibliotecas, associacionismo educativo, etc. Que se assegure um aumento substancial dos pressupostos dedicados à educação que situem o gasto do nosso país na média europeia. O que implica um compromisso das Administrações em situar o gasto com a educação em 6% do PIB, em um máximo de três anos.
  • QUEREMOS UMA EDUCAÇÃO EMANCIPADORA
  • QUEREMOS QUE O SABER, A CULTURA E A EDUCAÇÃO NÃO SEJAM UMA MERCADORIA MAIS, MAS FERRAMENTAS DE TRANSFORMAÇÃO E MELHORIA SOCIAL
  • QUEREMOS QUE ESTE FÓRUM SEJA UM IMPULSO PARA A LUTA POR UM SISTEMA EDUCATIVO PÚBLICO, LAICO E DE QUALIDADE PARA TODA A GENTE
  • OUTRO MUNDO É POSSÍVEL
  • OUTRA EDUCAÇÃO É NECESSÁRIA

Barcelona, 27 de Fevereiro de 2005


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